quinta-feira, 14 de junho de 2007

A história gravada em gigabytes




POR DAGOMIR MARQUEZI

Os historiadores do futuro poderão reconstruir nosso presente na base do mamão com açúcar. Vai ser uma moleza

Você talvez nunca tenha ouvido falar em Franz Joseph Haydn. Ele nasceu numa aldeia da Áustria em 1732. Por razões históricas (algumas bem injustas). Haydn anda meio esquecido hoje em dia. Mas nos seus 77 anos de vida ele revolucionou a história da música. Foi um dos criadores desse gênero musical que hoje chamamos de sinfonia. Haydn viveu numa época musicalmente tão rica que cantou quando menino no funeral de Vivaldi foi amigo e parceiro de Wolfgang Amadeus Mozart e professor de um garoto rebelde chamado Ludwig van Beethoven.

Estou lendo há anos a maior biografia já escrita sobre ele: Haydn Chonicle and Works, de Robbins Landon. São mais de 3 mil páginas em cinco volumes. Você acompanha a vida do compositor por meio de artigos de jornais, trechos de cartas, recibos assinados pro príncipes e diários pessoais. Pois assim se registrava a vida na segunda metade do século 18: papel, papel e só papel. A Maior parte do que foi registrado queimou, molhou, embolorou, virou pó. O que pôde ser salvo ficou ainda mais valioso.

Transporte-se, por exemplo, para o dia 2 de fevereiro de 1795. Haydn em pessoa está regendo a orquestra no palco do King´s Theater, em Londres. Apresenta pela 1ª vez uma de suas mais brilhantes e surpreendentes composições, a sinfonia 96. Ao fim do ultimo acorde, o publico esta tão encantado com a musica que se levanta de suas cadeiras e se aproxima do palco para ver o gênio de perto. Eis que um grande lustre despenca do teto no meio da platéia. Passando o susto, alguém grita: “Milagre! Milagre!” Se Haydn não despertasse tanta admiração, se as pessoas aplaudissem em seus lugares, haveria muitos mortos. “Milagre!” Esse virou o apelido da Sinfonia 96.

Agora de um salto em 210 anos. Estamos em 2005, e eu leio o imenso livro de Robbins Landon que não existe um único registro oficial desse fato. Nada. Zero. Apenas o registro oral, passado de geração em geração. Até o livro. O que me faz pensar: como os historiadores de daqui a 100 anos vão reconstruir nossa época? Terão a mesma dificuldade? Bom, depende. Podemos realizar a tão adiada grande guerra global termonuclear. Ou um meteoro grandão pode cair aqui e causar um estrago irreversível.

Mas tirado as catástrofes apocalípticas tudo indica que os historiadores do futuro poderão reconstruir nosso presente na base do mamão com açúcar. Vai ser uma moleza. E por uma questão tecnológica. Quem acompanhar a evolução dos computadores sabe que já tivemos vários “booms”. O atual é o armazenamento de dados.

Cada vez mais barato e capaz. Digo isso no dia em que encomendei meu HD de 120 GB. Se quebrar, já tirei cópias em CD. Espalhei os documentos de 10 GB em contas gratuitas do Gmail. Carrego um memory stick de 256 MB. Tenho drive de smartcard, a memória do meu Palm. Logo mais teremos todos gravadores de DVD, alem de HDs portáteis. É praticamente impossível perder os arquivos, a não ser que se marque bobeira demais.

O historiador de 2015 poderá encontrar uma quantidade tão imensa de informação digital de nossos tempos que será capaz de reconstituir nossa vida com detalhes preciosos. O mais difícil será processar tantos dados. Se hoje o registro detalhado de um único dia na vida de Joseph Haydn é raro, nossos observadores em um século poderão decifrar nossos movimentos em blogs. Planilhas, diálogos do Menssenger, fotos, Playlists.

Só tem um aspecto que me incomoda. É a sensação intima e subjetiva que em humanidade piorou desde os tempos de Vivaldi, Mozart, Beethoven e Haydn. E quanto mais capacidade de registro temos ao nosso alcance, menos temos a registrar de realmente importante.

Matéria em audio: http://w13.easy-share.com/1223141.html

Info Exame - Agosto 2005

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Um comentário:

Unknown disse...

Olá.
Muito bom seu blog,informações atualizadas.
um layout simples e enxuto,onde o que é valorizado são as informações.
muito bom,parabéns.